Jovens descobrem novo sentido para suas vidas em centro de reabilitação doado por Coreia do Sul, retribuição à atuação colombiana na guerra

Desde novembro, José Carlos Hoyos segue à risca uma pesada rotina de exercícios físicos que dura das 8 horas da manhã ao meio dia. Seu sonho é representar a Colômbia em competições internacionais. Mas nem sempre foi assim. 

Aos 24 anos, o atleta de esgrima sobre cadeira de rodas, ex-soldado em formação viu seu mundo virar de cabeça para baixo há cerca de um ano, quando prestava o serviço militar obrigatório e, após uma operação mal sucedida contra um grupo paramilitar, passou a integrar uma das estatísticas mais cruéis do país: a de vítimas de minas terrestres e artefatos explosivos improvisados, que desde 2004 levaram à morte ou invalidez mais de 12 mil colombianos — este é o segundo dia da série de reportagens do GLOBO sobre os casos de minas terrestres no país.

O acidente ocorreu por volta das 23h de 19 de abril de 2022. A viatura na qual o pelotão de apoio em que Hoyos servia foi atingida pela explosão de uma mina improvisada antiveicular quando se deslocava pela zona rural de Frontino, um município do departamento de Antióquia onde, segundo dados do Alto Comissariado para a Paz da Colômbia, as brigadas e organizações internacionais de desminagem humanitária não conseguem atuar, devido à falta de segurança. Sete militares morreram e oito ficaram feridos no acidente, mas apenas Hoyos teve as pernas amputadas.

— Não perdi a consciência, mas fiquei atordoado, porque enquanto recuperava o fôlego, comecei a escutar tiros, e quando tentei correr, percebi que já não podia contar com as minhas pernas — conta Hoyos ao GLOBO. — Uma tropa amiga do Exército que vinha logo atrás fez a nossa cobertura durante o tiroteio, que durou uns 15 minutos. Só então o médico de combate que nos acompanhava pode começar os atendimentos de emergência.

Dores intensas

Natural do departamento vizinho de Córdoba, Hoyos lembra que o resgate só conseguiu chegar ao local do acidente por volta das 5 horas da manhã e, por isso, sua perna direita teve de ser amputada ali mesmo, de maneira quase improvisada com as ferramentas que se tinha à mão. Depois, já no posto de saúde local e sedado com morfina, cortaram-lhe também a perna esquerda.

De lá, seguiu de helicóptero até um hospital em Medellín, distante 172 km, onde passou 15 dias na unidade de terapia intensiva e foi submetido a outras cirurgias de amputação transfemural — quando a incisão é feita acima do joelho — devido a uma infecção que surgiu na região após o acidente.

— Foi muito difícil para a minha família, eles não esperavam algo assim, mas foram poucos os momentos em que me desesperei, só quando a dor era intensa demais — conta o atleta paralímpico, que suportou por um mês e meio as dores agudas do pós-operatório até a cicatrização e os remédios começarem a surtir efeito. 

— Estar prestes a morrer faz com que se valorize a vida sem reclamar das coisas que se perde. Perdi minhas pernas, mas tenho minha vida, posso ver minha filha crescer, posso me divertir com minha mãe e com minha esposa.

História que se repete

Quase dez anos antes, algo semelhante aconteceu com o soldado profissional Jesús Alberto Pastrana Restrepo: na manhã de 30 de março de 2014, durante a patrulha de um oleoduto com outros 11 homens do Exército colombiano no município de Arauca, ele pisou em um artefato explosivo que dilacerou a sua perna direita enquanto atravessava um riacho para buscar água para a tropa à pedido do comandante.

— Não assimilei a realidade naquele momento. Primeiro senti uma forte onda explosiva e achei que fosse morrer. Depois abri meus olhos e pude ver que havia perdido minha perna direita abaixo do joelho, além de ter sofrido vários ferimentos e queimaduras — lembra Restrepo.

A região, na divisa com a Venezuela, é uma das mais afetadas no país pela com minas antipessoal devido à forte presença de grupos armados inimigos, que lançam esses artefatos explosivos no solo como forma de se “proteger”.

— Ser militar para mim era algo muito bonito, senti mais pela minha carreira do que por perder uma perna. Mas quando minha mãe não se aguentava e chorava na minha frente, eu dizia: “não se preocupe, mamãe, eu estou vivo, é tudo o que importa”.

Retribuição coreana

Restrepo — assim como Hoyos — encontrou um novo propósito de vida no esporte paralímpico. Desde outubro, se dedica ao atletismo de campo no lançamento de dardo. Ambos são beneficiários da Direção de Veteranos e Reabilitação Inclusiva (Divri), um departamento do Ministério da Defesa. 

Inicialmente conhecido como Centro de Reabilitação Inclusiva, o espaço foi inaugurado em 29 agosto de 2016, com aporte financeiro do governo da Coreia do Sul, que investiu US$ 11 milhões em retribuição ao envio de tropas colombianas para a guerra contra a Coreia do Norte nos anos 1950.

A Divri oferece, gratuitamente, cursos de empreendedorismo e inserção no mercado de trabalho, atividades como pintura e musicalização, e formação esportiva, em modalidades como esgrima, natação e triatlo. A casa tem dormitório para 160 pessoas.

Questão de tempo

Além de jovens militares recém-acidentados, a Divri também recebe veteranos como o primeiro sargento da reserva Francisco Pedrazas Osorio, 46, que foi medalha de ouro nos Jogos Paranacionais da Colômbia em 2008 e 2012 na modalidade de paraciclismo. 

Ele se dedica ao esporte desde 2005, depois que sofreu um acidente, em 12 de setembro de 2004, em um campo minado de Caquetá, próximo à divisa com o Peru, outra zona quente de conflitos no país — só naquele ano, foram registradas 129 vítimas de artefatos explosivos neste departamento. 

Ele se acidentou em uma operação de resgate de campesinos sequestrados pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Quatro soldados ficaram feridos, e como estavam subindo uma montanha enfileirados, os efeitos da explosão foram diferentes para cada um, explica Osorio:

— A minha perna esquerda foi amputada na altura do joelho e também perdi os movimentos da perna direita — conta. — Outro soldado perdeu a perna na altura da tíbia, outro teve perfurações na altura do abdômen e outro perdeu totalmente a parte inferior do maxilar.

Histórias como as de Hoyos, Pedrazas e Osorio, separadas por quase 20 anos no tempo, não são casos isolados na Colômbia e revelam um rastro “invisível” da ação persistente de grupos armados irregulares, que há seis décadas aterrorizam dezenas de comunidades locais e provocam a morte ou invalidez de milhares de pessoas.

— Soa forte de se dizer, mas [o acidente] era esperado — afirma Osorio. — É claro que você não quer que nada te aconteça, mas nessas áreas de conflito, você tem de estar ciente de que não é questão de se, mas de quando vai acontecer.


Fonte: O GLOBO