A decisão do ministro Alexandre de Moraes que proibiu Jair Bolsonaro de manter qualquer tipo de contato com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, tem levado o ex-presidente do Executivo e o chefe do partido a adotarem uma rotina bastante particular.

A primeira providência foi ajustarem a escala de trabalho de forma que Valdemar e Bolsonaro só compareçam à sede nacional da legenda em dias alternados.

As salas de Valdemar e de Bolsonaro ficam no mesmo andar de um centro empresarial no centro de Brasília, mas possuem entradas diferentes. É como se fossem duas propriedades diferentes no mesmo andar, sem nenhum tipo de comunicação entre os dois ambientes.

Mesmo assim, Valdemar e Bolsonaro têm buscado se revezar nas idas aos seus respectivos escritórios, para impedir o risco de se encontrarem por acaso na garagem ou no elevador e serem flagrados por alguma câmera ou testemunha.

Quando os dois são obrigados a cumprir algum compromisso por ali no mesmo dia, porém, o PL tem que improvisar.

A equipe da coluna apurou que Valdemar já foi obrigado a alugar uma sala em um outro prédio do mesmo centro empresarial, quando soube que Bolsonaro estava despachando no escritório.

Além disso, com o avanço das negociações em torno das eleições municipais de outubro, os dois têm utilizado parlamentares do PL como intermediários para trocar informações sobre assuntos da agenda partidária, como as definições das chapas.

A proibição de contato está em vigor há quatro meses, mas aliados de Bolsonaro esperam que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) mude de entendimento em breve, com a proximidade das eleições municipais, quando o PL conta com o ex-presidente como principal cabo eleitoral para alavancar o número de prefeituras por todo o país.

“A decisão é patética, cerceia uma atividade básica da político-partidária que é justamente a articulação política, a boa conversa, a decisão pelo melhor candidato nas disputas”, critica reservadamente um interlocutor de ambos, que pediu para não ser identificado.

A decisão ocorreu em fevereiro deste ano, depois que Moraes autorizou uma operação de busca e apreensão – chamada de Tempus Veritatis – contra uma série de suspeitos de tentativa de golpe de Estado para impedir a posse de Lula, entre eles Bolsonaro e o próprio Valdemar.

Na época, a PF viu elementos de que a estrutura do partido foi usada para ajudar na confecção da minuta golpista – e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, informou haver indícios da participação de Valdemar no “sistema delituoso que se apura”.

A PF encontrou uma pepita e 39 gramas de ouro encontrada com Valdemar. O presidente do PL acabou preso em flagrante por outro motivo: porte ilegal de arma, que estava com registro irregular, documentação vencida e em nome do filho dele. Ele acabou solto após três dias preso.

Procurado pela equipe da coluna, Valdemar não se manifestou.


Fonte: O GLOBO