Com o início da guerra, Sde Teiman passou a ser ocupada por prisioneiros vendados, algemados isolados de qualquer contato com o mundo exterior por semanas

Porto Velho, Rondônia - Os homens se sentam em filas, algemados e vendados, sem poder ver os soldados israelenses que os observam do outro lado de uma cerca. Foram proibidos de emitir qualquer som mais alto do que um murmúrio, e só podem se levantar ou dormir quando autorizados.

Alguns se ajoelharam para orar. Um foi examinado por um paramédico. Outro recebeu a permissão para tirar as algemas e se lavar, enquanto outras centenas de detentos palestinos permaneceram sentados em silêncio. Todos foram isolados do mundo exterior, impedidos de entrar em contato com parentes e advogados.

Essa era a cena em uma tarde de maio dentro de um hangar militar dentro de Sde Teiman, uma base da Força Aérea no sul de Israel que se notabilizou como um centro de detenção de palestinos da Faixa de Gaza. Muitos dos capturados desde o início da guerra, no dia 7 de outubro, foram levados para serem interrogados no local, de acordo com os israelenses.

Os militares, que não haviam dado acesso à imprensa anteriormente, permitiram que o New York Times observasse, de maneira breve, as instalações, assim como entrevistar seus comandantes e outros oficiais, desde que em caráter de anonimato.

Sde Teiman é agora um foco de acusações de que os militares israelenses maltrataram detentos, incluindo pessoas que não tinham laços com o grupo terrorista Hamas ou outras organizações armadas. Em entrevistas, alguns dos que foram presos ali descreveram agressões e outros abusos.

Até o final de maio, cerca de 4 mil detentos passaram cerca de três meses em um limbo na base, incluindo alguns dos capturados durante os ataques do Hamas em Israel, afirmaram comandantes da base. Após os interrogatórios, cerca de 70% deles foram transferidos para prisões onde seriam investigados e processados. Os demais, cerca de 1,2 mil pessoas, voltaram a Gaza sem acusações, desculpas ou compensações.

— Meus colegas não sabiam se eu estava vivo ou morto — disse Muhammad al-Kurdi, um motorista de ambulância cuja passagem pelo centro de detenção, no ano passado, foi confirmada pelo Exército.

Ele conta que ficou detido por 32 dias, após ser capturado em novembro, quando seu comboio de ambulância tentou passar por um posto de controle israelense no sul de Gaza. Para al-Kurdi, “foi como se tivessem passado 32 anos”.

Uma investigação de três meses do New York Times descobriu que 1,2 mil civis palestinos ficaram detidos em Sde Teiman, em condições precárias, sem acesso a tribunais por até 75 dias. Eles não puderam conversar com advogados por até 90 dias, e sua localização não foi compartilhada com grupos de direitos humanos ou com a Cruz Vermelha, algo que especialistas veem como uma violação da lei internacional.

Posto de controle na entrada da base de Sde Teiman, em Israel — Foto: Avishag Shaar-Yashuv/The New York Times

Oito ex-detentos, cujas passagens pela base foram confirmadas pelos militares, disseram ter levado socos, chutes e outros tipos de agressões enquanto estavam sob custódia dos israelenses. Sete deles afirmaram ter sido forçados a usar apenas uma fralda durante os interrogatórios, e três confirmam ter levado choques elétricos enquanto prestavam depoimento.

Muitas das alegações foram repetidas por funcionários da UNRWA, a principal agência da ONU para os refugiados palestinos, uma instituição que Israel afirma ter sido infiltrada pelo Hamas, algo negado pelas Nações Unidas. A agência entrevistou centenas de pessoas que foram detidas e que relataram abusos generalizados não apenas em Sde Teiman, mas em outras instalações similares.

Um soldado israelense que trabalhou no local, e que só concordou em conversar sem revelar sua identidade para evitar punições, disse que alguns colegas se vangloriavam pelas agressões aos detentos, e relatou ter visto sinais de abusos.

Dos 4 mil detidos em Sde Teiman desde outubro, 35 morreram no local ou em hospitais próximos, de acordo com militares da base. Alguns morreram por causa de ferimentos ou doenças contraídas antes do encarceramento, mas os oficiais negam que tenham morrido por causa de abusos sofridos no local, algo que promotores ainda estão investigando.

Durante a visita, médicos militares disseram que não observaram sinais de tortura, e os comandantes disseram ter tentado tratar os detidos da forma mais humana possível. Eles confirmaram que pelo menos 12 soldados foram afastados de suas funções, alguns por uso excessivo de força.

Nas últimas semanas, a base foi alvo de crescente escrutínio da imprensa, assim como da Suprema Corte, que na quarta-feira começou a analisar uma petição de grupos de direitos humanos para fechar o local. Em resposta, o governo israelense disse que reduzirá o número de detidos e que vai melhorar as condições ali. Um painel para investigar o tratamento dos detidos também foi aberto pelo Exército.

Em uma longa declaração, os militares negaram que “abusos sistemáticos” tenham ocorrido em Sde Teiman. Diante de alegações individuais de abusos, disseram que elas eram “evidentemente incorretas ou completamente infundadas”, e podem ter sido criadas por pressão do Hamas.

“Qualquer abuso dos detidos, seja durante a prisão ou interrogatório, viola as leis e diretrizes das Forças Armadas, e é estritamente proibido”, diz a declaração. O Shin Bet, a agência de inteligência interna de Israel, disse em declaração que todos seus interrogatórios na base ocorreram “de acordo com a lei”.

Yoel Donchin, um médico militar que trabalha na base, disse que não estava claro por que os soldados israelenses capturaram algumas das pessoas que foram tratadas por ele no local, sendo que muitas não pareciam ser combatentes. Um era paraplégico, outro pesava mais de 150kg e um terceiro respirava com a ajuda de um tubo em seu pescoço desde a infância.

— Por que eles o trouxeram, eu não sei — disse Donchin. — Eles pegam todo mundo.

Como os detentos são capturados

Fadi Bakr, estudante de Direito na Cidade de Gaza, disse ter sido capturado no dia 5 de janeiro por soldados israelenses perto de casa. Deslocado por causa da guerra, ele retornou para a vizinhança onde morava em busca de farinha, mas ficou no meio do fogo cruzado e foi ferido. Os israelenses o encontraram sangrando, tiraram sua roupa, confiscaram seu telefone e dinheiro e o acusaram de ser um combatente que sobreviveu ao combate, conta Bakr.

— Confesse agora ou vamos atirar em você — disseram os soldados, segundo o estudante, que respondeu ser apenas um civil.

As circunstâncias da prisão são semelhantes às de outros detentos entrevistados pelo New York Times. Muitos disseram ter sido acusados de agirem de forma suspeita porque os militares os encontraram em áreas onde acreditavam que os combatentes do Hamas estariam abrigados.

Younis al-Hamlawi, enfermeiro, disse ter sido preso em novembro, após deixar o Hospital al-Shifa, na Cidade de Gaza, durante um ataque israelense ao local. Os soldados o acusaram de ter laços com o Hamas.

Al-Kurdi, o motorista da ambulância, disse ter sido capturado enquanto tentava levar pacientes através de um posto de controle israelense. Os militares dizem que os combatentes do Hamas usam ambulâncias de forma recorrente.

Os oito ex-detentos descreveram suas capturas de formas similares: eles foram vendados, atados com algemas de plástico e deixados apenas com as roupas íntimas. A maioria foi interrogada, agredida e chutada ainda em Gaza, e outros relatam golpes desferidos com os fuzis. Depois foram jogados em caminhões militares, ao lado de outros detentos, rumo a Sde Teiman. Posteriormente, alguns passaram algum tempo no sistema prisional israelense, enquanto outros foram mandados para Gaza.

Bakr conta que, durante o mês na base militar, passou quatro dias seguidos sendo interrogado.

— Considero aqueles os piores quatro dias de minha vida — afirmou.


Fonte: O GLOBO