Líder da quarta maior editora do país, Lenora Monnerat avalia que audiolivros ainda vão decolar no mercado nacional e aponta tendências para o público evangélico

Braço nacional de um dos maiores conglomerados editoriais do mundo, a HarperCollins Brasil comemora dez anos de operação no país em 2025. Não foi uma década fácil, com altos e baixos. Teve recessão histórica (2015-2016), recuperação judicial das duas maiores redes de livrarias do país (Saraiva e Cultura), pandemia (quando a venda de livros explodiu) e ameaça de taxação do setor.

A americana Harper superou os obstáculos e se tornou a quarta maior editora do Brasil (atrás de Companhia das Letras, Record e Sextante) revitalizando autores clássicos como J.R.R. Tolkien (de “O senhor dos anéis”), Agatha Christie e C.S. Lewis (“As crônicas de Nárnia”). Também é líder no segmento de livros evangélicos com o selo Thomas Nelson, que representa metade do faturamento no país.

Em entrevista ao GLOBO, a diretora executiva da Harper no Brasil Lenora Monnerat aponta tendências desse mercado, fala sobre o impacto da inteligência artificial (IA) nas editoras e os preços dos livros.

Qual foi o maior desafio enfrentado nestes quase dez anos de operação brasileira?

O começo não foi fácil. Tivemos problemas financeiros. A quebra da Saraiva surpreendeu os americanos. O maior desafio foi botar a empresa nos trilhos depois desse baque, arrumar a casa de olho no que estava acontecendo no mercado. Deu tudo certo graças ao nosso time, que compartilha os mesmos propósitos e valores, é entusiasmado, persistente, tem uma criatividade bem brasileira, sempre acha uma saída.

Em 2023, compartilhamos nossas experiências com países como Polônia e Holanda, que tiveram inflação alta.

Quais são as especificidades do mercado evangélico?

O selo Thomas Nelson é inclusivo e não excludente, olhamos para todas as denominações e temos livros para conservadores e progressistas. Vejo dois movimentos no mercado evangélico. O primeiro é a busca por livros de espiritualidade prática, que mostrem onde está Deus no dia a dia das pessoas e que ultrapassam o público evangélico.

HarperCollins, quarta maior editora do Brasil — Foto: Divulgação

Outro movimento é a migração desse público para a compra on-line, acelerada na pandemia. Hoje há livros cristãos nas listas de mais vendidos porque livrarias físicas e virtuais, inclusive a Amazon, dão mais atenção a esse público.

O que mais os evangélicos querem ler?

Uma tendência forte é a ficção cristã, livros que têm o cristianismo como pano de fundo, mas não são pregações, e sim histórias bem contatas. Essa tendência estourou nos EUA há uns 15 anos e hoje já temos no Brasil livros de ficção cristãos de alto nível, de autores estrangeiros e nacionais, como Sara Gusella e Camila Antunes.

Depender tanto do público cristão restringe o tipo de livro que os outros selos da Harper publicam?

De jeito nenhum. Oferecemos conteúdo de qualidade, e o leitor escolhe o que consumir.

Vocês apostam no sucesso de quais outros nichos?

O infantil, sem dúvidas. Começamos bem discretos, mas temos uma vantagem competitiva que é o catálogo infantil da Harper no exterior. De uns anos para cá, aumentamos nossos investimentos no infantil e apostamos em clássicos como E.B. White, autor de “Stuart Little” e “A teia de Charlotte”, e grandes marcas como Minecraft. Agora, queremos focar em autores brasileiros e na comunicação com pais e professores.

No início, reformulamos o selo Harlequin, que agora publica livros em que o amor é sempre o protagonista, seja o romântico, o familiar, o amor-próprio etc. Essa mudança já está dando certo, nossas redes sociais estão crescendo. E vamos lançar um selo para jovens adultos na Bienal do Livro de SP, parte de uma estratégia de longo prazo.

Depois do ‘boom’ da pandemia, a venda de livros segue em queda e só cresce quando há promoções, como a Semana do Consumidor, em março. Como vê esse cenário?

A venda vem diminuindo em volume, mas o faturamento segue crescendo. Não só devido ao aumento do preço, mas também à redução do desconto ao consumidor e da mudança do nosso mix de produtos. Em 2024, a não ficção, que historicamente tem um preço de capa mais alto, está crescendo.

Os bons números da Semana do Consumidor mostraram que o leitor é sensível ao preço. A Amazon deve fazer outras promoções este ano. Mas o mercado vem encontrando saídas e está aquecido, como prova o aparecimento de tantas novas tendências. Historicamente, a Harper cresce mais que o mercado.

O aumento do preço médio do livro supera a inflação há mais de um ano. Chegou a R$ 48,65 em março. Por quê?

O aumento do preço tem a ver também com o tipo de produto que está vendendo mais, a não ficção, que é de fato mais cara. No preço do livro está embutida a remuneração de uma cadeia que inclui autor, edição, impressão, distribuição, divulgação, livraria. Saber disso muda a percepção de que o livro é caro.

O livro tem um preço justo e é mais acessível que outros produtos, como cinema ou teatro. Sem falar nos benefícios que traz.

Parte do setor se articula para aprovar a Lei do Preço Fixo, que limitaria a 10% os descontos no ano de lançamento de um livro, ajudando as livrarias na concorrência com a Amazon. Apoia essa proposta?

Essa lei existe em países que têm culturas diferentes da nossa. Tenho dúvidas quanto à efetividade no Brasil. É uma discussão antiga, que muda conforme muda o mercado e surgem novos competidores. Precisamos analisá-la com mais cuidado.

Desde 2022, a maior parte do faturamento das editoras vem de livrarias virtuais, sobretudo da Amazon. Não é arriscado depender tanto de um só cliente?

As livrarias físicas são muito importantes por causa do contato direto com o leitor. É nelas que a gente divulga lançamentos e descobre o que está funcionando. Já a Amazon tem um serviço de distribuição excelente, que entrega livros onde não tem livraria. É boa na cauda longa, mas não é tão eficaz na divulgação de lançamentos. Num mercado competitivo, os dois segmentos têm importância.

Como a IA está impactando a indústria do livro?

A prioridade é a proteção do conteúdo dos nossos autores, que não pode ser usado para alimentar ferramentas de IA sem remuneração. Vemos a IA como uma ferramenta para aumentar a produtividade e melhorar o nosso serviço, mas sempre com supervisão humana. Atualmente, usamos IA para trabalhar com metadados e criar palavras-chave, o que traz economia e melhora nosso serviço.

No ano passado, a Audible, plataforma de audiolivros da Amazon, começou a operar no Brasil. Esse mercado ainda vai decolar por aqui?

Eu acredito de verdade no áudio. O brasileiro é consumidor de podcast e já está acostumado com as plataformas. Temos um perfil de consumo muito parecido com o americano. Lá, o audiolivro já representa uma parcela importante do mercado. É só uma questão de tempo. Na Harper, estamos nos preparando para quando o mercado realmente aquecer formando um catálogo diverso de audiolivros.


Fonte: O GLOBO