A julgar pela fotografia de hoje, a janela para IPOs (oferta pública de ações) na Bolsa não deve se abrir este ano, avalia Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Investimentos, Vida e Previdência. A revisão das expectativas se dá com a redução do otimismo em relação ao panorama de inflação e o consequente cenário de corte de juros por parte do Federal Reserver, nos EUA. — Hoje não vemos muito espaço (para ofertas na Bolsa). A menos que haja três quedas seguidas de corte antes de junho — diz ele.

No fechamento do ano passado, gestores estavam otimistas com uma previsão da retomada de IPOs para 2024. A própria Sulamerica estimou uma movimentação de R$ 50 bilhões em 2024, sendo R$ 20 bilhões em IPOs e o restante em follow-ons.

O país vive um jejum de dois anos sem IPO. O último IPO foi da Vittia, em agosto de 2021. Naquele ano, o país alcançou a marca de R$ 130,5 bilhões em ofertas na Bolsa, sendo R$ 65,6 bilhões em IPOs, com 46 operações — um recorde em valores nominais. Em número de operações, o recorde foi em 2007, com 64 ofertas iniciais, totalizando R$ 55,6 bilhões. — A janela pra IPO ficou muito reduzida, mas o mercado está bom para crédito — diz Mello.

A gestora, que foi vendida junto com o plano de saúde para a Rede D’Or em 2022, acaba de bater a marca de R$ 70 bilhões de ativos sob gestão, incluindo carteiras administradas. O crescimento foi impulsionado por fundos de crédito, que saíram de um volume de R$ 3 bilhões há 18 meses, para R$ 22 bilhões.

A gestora não tinha exposição ao rombo de R$ 40 bilhões da Americanas e já tinha um portfólio preparado para atender a demanda de crédito financeiro. — Os clientes saíram de fundos de crédito corporativo (debêntures) e migraram para o corporativo financeiro (certificados de recebíveis, por exemplo) — diz Mello.

No último ano, a gestora, cujo perfil é mais voltado para investidores institucionais, ampliou a participação do varejo no seu portfólio, de 15% para 20%. Hoje são 220 mil investidores no varejo. E o número de plataformas que distribuem seus produtos saiu de 20 para 30 no último ano.

Segundo Mello, todo o portfólio da gestora embute uma análise de critérios ESG, dentro do chamado filtro positivo. A gestora, que é signatária de iniciativas como Investidores pelo Clima e o PRI (Principles for Responsible Investment), não exclui setores que costumam ficar de fora do portfólio de gestores ativistas, como óleo e gás, por exemplo. 

Mas dá notas para setores e empresas e faz comparação entre elas. — A gente tenta engajar as empresas a mudar e a buscar metas. Leva tempo e dá trabalho. Ser sustentável é custoso para as empresas. E apostamos no diálogo com as fundações, que têm um papel importante para liderar esse movimento — diz.


Fonte: O GLOBO