Principal opositor do presidente Vladimir Putin está preso desde 2021, mas continuava fazendo publicações nas redes sociais e mandando mensagens aos advogados

Alexei Navalny — principal opositor do presidente Vladimir Putin declarado como morto nesta sexta-feira — fez publicações nas redes sociais até esta quarta-feira. O post era uma mensagem à sua esposa, Yulia, em comemoração ao Valentine's Day (Dia dos Namorados). Mesmo preso, o opositor continuava postando nas redes sociais e enviando mensagens aos seus advogados. A morte de Navalny foi anunciada pelo Serviço Penitenciário Federal russo. A porta-voz do opositor, Kira Yarmysh, por outro lado, declarou que ainda não tem "nenhuma confirmação" sobre o óbito.

Em sua última publicação nas redes sociais, Navalny aparece ao lado da esposa em uma foto. Na legenda, ele escreveu: "Entre nós há cidades, luzes de decolagem de aeródromos, nevascas azuis e milhares de quilômetros. Mas sinto que você está perto a cada segundo, e te amo cada vez mais".

O Serviço Penitenciário Federal afirmou que Navalny "sentiu-se mal após uma caminhada, perdendo quase imediatamente a consciência". Os médicos da instituição teriam sido chamados, e “todas as medidas de reanimação necessárias foram realizadas, mas não tiveram resultados positivos”.

Uma agência de notícias russa, a Sota.Vision, divulgou nesta sexta um vídeo que teria sido gravado na quinta-feira. As imagens duram cerca de 1m20s e foram registradas de uma televisão. Nelas, o opositor aparece atrás das grades, em uma chamada de vídeo, para uma "audiência do tribunal".

"Alexei está acordado, saudável e alegre", pontuou Sota.Vision.

Navalny, um ativista anticorrupção e um dos principais adversários políticos do presidente Vladimir Putin, cumpre pena de 19 anos de prisão por "extremismo", devendo cumprir a pena em uma colônia de "regime especial". Ele foi detido em janeiro de 2021 ao retornar à Rússia, depois de se recuperar na Alemanha de um envenenamento que, segundo ele, foi planejado pelo Kremlin.

Sua morte ocorre a praticamente um mês das eleições presidenciais russas, marcadas para março. Putin já confirmou que concorrerá ao pleito, dizendo que "não há outro caminho" a não ser disputar a votação. A princípio, ele não poderia tentar reeleição, mas mudanças feitas na Constituição garantem agora sua manutenção no poder até 2036. Navalny era um dos nomes mais conhecidos internacionalmente.

Durante o anúncio de tentativa de reeleição por parte do atual presidente, sua equipe encorajou os russos a votarem em "qualquer outro candidato" sem ser Putin e chamou a eleição de "farsa".

Lobo Polar: a prisão 'congelante'

Em janeiro, Navalny havia aparecido em imagens pela primeira vez desde que foi transferido para uma colônia penal em Kharp, no Ártico russo, em dezembro. Na época, a equipe dele tinha ficado três semanas sem receber notícias, e pouco se sabia sobre seu estado de saúde.

De acordo com a agência Reuters, a nova prisão de Navalny é conhecida como colônia "Polar Wolf" (“Lobo Polar") e considerada uma das prisões mais difíceis de se ficar na Rússia, com invernos bastantes rigorosos e temperaturas que beiram os 30 graus Celsius negativos.

Há pouco mais de um mês, o opositor participou de uma audiência da Suprema Corte que avaliava suas queixas sobre as condições de sua detenção na Sibéria. Ele afirmou, na ocasião, que era submetido a temperaturas “congelantes”, que chegavam a 32 graus negativos.

— A cela de punição costuma ser um lugar muito frio — afirmou ele. — Você sabe por que as pessoas escolhem um jornal lá [um dos itens que podem receber na cela]? Para se cobrirem. Porque com um jornal, posso dizer a vocês, juízes, é muito mais quente dormir, por exemplo, do que sem ele. E então você precisa de um jornal para não congelar.

Até o início de dezembro, antes de sua transferência, ele estava detido na colônia da região de Vladimir, a 250 quilômetros de Moscou. Kharp, uma pequena cidade de 5 mil habitantes, situa-se em Yamalia-Nenetsia, uma região remota no norte da Rússia. A localidade fica além do Círculo Polar Ártico e abriga várias colônias penais.


Fonte: O GLOBO