Fintech de microcrédito caminha para bater a marca de R$ 2 bilhões em empréstimos

Uma vendinha que aceita fiado na periferia. É assim que Fernando Silva, CEO do Jeitto, gosta de descrever a sua fintech de microcrédito. Nos últimos 5 anos, a “vendinha” financiou R$ 1,9 bilhão para 2 milhões de clientes, sendo 40% deles negativados — e que só conseguem crédito, quando muito, com parentes ou na vendinha do vizinho. 

Enquanto bancos, fintechs e financeiras alcançam as classes D e E ofertando um crédito a juros exorbitante para compensar a alta inadimplência esperada, o Jeitto usa análise de dados para alcançar mais consumidores com um crédito (micro) que cabe na renda das famílias. A fórmula parece estar dando certo: a taxa de inadimplência, de 11%, é inferior à média do mercado.

— Crédito é por natureza um sistema injusto. Os bons pagadores pagam pelos maus. Temos que trabalhar para ser mais assertivos — diz Fernando que, antes de fundar o Jeitto, trabalhou na implementação de um programa de microcrédito no Quênia e na Nigéria que emprestava pequenas quantias com base em informações sobre consumo de dados das operadoras de celular.

O Jeitto herdou a simplicidade aprendida na África e pede apenas duas informações para abrir cadastro e fazer a análise de crédito: CPF e número de telefone. Se aprovado, o dinheiro é liberado no ato. Mas, para isso, o cliente precisa dar acesso a informações sobre o uso do celular. 

Os algoritmos estimam renda e avaliam a capacidade de pagamento a partir de informações como frequência de chamadas em horário comercial. Tem app de motorista de Uber? Bíblia digital? Faz apostas esportivas? Os apps que você carrega no celular podem dizer muito sobre você.

Foram quatro anos desenvolvendo a tecnologia de análise de crédito e prevenção à fraude, até o lançamento em 2019.

Atualmente, o Jeitto conta com 3,5 milhões aptos a contrair empréstimos — e outros 3,5 milhões na fila. A carteira está em R$ 677 milhões.

O Jeitto empresta o suficiente para o cliente fechar o mês ou comprar aquela cerveja para vender no isopor. O crédito varia de R$ 100 a R$ 500 (ticket médio de R$ 160), para pagamento em até 40 dias. O juro está em 12% ou 13%, abaixo do usualmente praticado. 

O juro por atraso é de apenas 1%. O inadimplente fica proibido de pegar novos empréstimos. Mas a pessoa tem um incentivo para quitar a dívida: mesmo que leve um ano para pagar, no dia seguinte ela já pode voltar a “comprar fiado”.

No Desenrola, o Jeitto atuou proativamente para atrair os clientes inadimplentes e conseguiu recuperar 16% da dívida elegível, uma das maiores taxas de sucesso do programa do governo.

— As financeiras empurram mais de R$ 1 mil, com juros altos, quando a pessoa às vezes só precisa de um pequeno valor de curto prazo para fechar o mês. Aí ela gasta a diferença sem planejamento e fica com uma dívida caríssima — diz Fernando.

Além dos microempréstimos, o Jeitto também disponibiliza, a depender da renda estimada, um empréstimo pessoal de R$ 1.000, para pagamento em 16 meses. Para atrair novos clientes, o Jeitto conta com a ajuda da vendinha. Varejistas podem se cadastrar e divulgar o aplicativo na boca do caixa. Se o cliente tiver o crédito aprovado na hora, o comerciante recebe o valor à vista, sem taxa.

Compre agora, pague depois

Para este semestre, a fintech vai lançar uma nova modalidade de crédito: o pagamento de compras via PIX atrelado ao limite de crédito concedido. É uma versão do “compre agora, pague depois”. Para clientes com limites maiores, serão oferecidas ainda duas novas linhas específicas para cobrir gastos com saúde e material de construção, com prazos também maiores.

O Jeitto opera um FIDC de R$ 580 milhões, estruturado pelo Banco Master. Um novo fundo, de mais ou menos R$ 500 milhões, deve ser lançado com outro parceiro ainda este ano. A partir do segundo trimestre, a fintech, que em 2022 recebeu um aporte de R$ 15 milhões da gestora de impacto Rise, planeja iniciar uma nova rodada, desta vez mais robusta, na casa dos três dígitos. Assessoriado pelo BTG, Fernando mira fundos de private equity, family offices e investidores estratégicos sensíveis ao S (social) da pauta ESG.


Fonte: O GLOBO