Após Lula indicar Marta para a vice de Boulos, deputado estadual defendeu que houvesse 'uma escolha o mais democrática possível' para o posto

A articulação do presidente Lula para emplacar a ex-prefeita Marta Suplicy na vice de Guilherme Boulos (PSOL) em São Paulo expõe um contraste que ronda o Partido dos Trabalhadores e a figura de um de seus mais populares quadros: Eduardo Suplicy, ex-marido de Marta.

De um lado, o cenário reforça o isolamento do ex-senador e hoje deputado estadual na insistência pela realização de prévias para decidir candidatos em eleições importantes — processo em que, de modo geral, acaba derrotado. Suplicy defende que possa "haver uma escolha o mais democrática possível" para a vice de Boulos.

De outro, coloca o instrumento partidário de escolha interna, símbolo de democracia, como acessório dentro do mais vitorioso partido político do Brasil desde a redemocratização. Outras legendas também não costumam lançar mão do sistema popular de escolha.

Suplicy tem longo histórico de defesa de maior participação popular nos rumos do PT. Em 2020, então pré-candidato à Prefeitura de São Paulo, Suplicy criticou a diretriz da presidente do partido, Gleisi Hoffmann, para que fossem evitadas prévias para a definição da candidatura.

Também por sua insistência , o PT só realizou prévias para decidir seu candidato presidencial uma vez na história, em 2002. Na ocasião o então senador enfrentou Lula, que saiu vencedor com 85% dos votos dos mais de 170 mil filiados. Dez anos depois, Suplicy voltou a defender o processo na eleição paulistana em que Fernando Haddad seria escolhido prefeito.

Uma diretriz aprovada em setembro pela comissão executiva nacional do PT para as eleições de 2024, no entanto, estabelece uma série de regras para a indicação de candidaturas do partido. O documento cita que será realizado um encontro municipal nos casos em que não houver consenso sobre o apoio a candidaturas de outros partidos, candidaturas proporcionais ou de vice-prefeitos. O texto não cita prévias.

Eleito com 807 mil votos para a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) em 2022, Suplicy é eleitoralmente o parlamentar mais popular do partido. Naquele ano, o nome mais votado do partido para a Câmara dos Deputados, por exemplo, foi Gleisi Hoffmann, com 261 mil votos.

Mesmo assim, Suplicy enfrenta dificuldades para cavar espaço na agenda dos presidentes da República. Dilma Rousseff demorou três anos para recebê-lo no Palácio da Alvorada após insistentes pedidos. O encontro ocorreu em 2016, quando ela já estava afastada da Presidência, três meses antes de o impeachment ser consumado.

Agora, Suplicy vem tentando contato com Lula há meses. Em outubro, ele enviou uma carta ao presidente e a alguns ministros sugerindo a formação de um grupo de trabalho para ajudar o governo federal a instituir para valer a renda básica universal, cuja lei completou 20 anos este mês. O parlamentar sugeriu o nome de 104 especialistas para o GT, mas não teve resposta.

Em dezembro, toda a bancada do PT na Alesp assinou uma nova carta pedindo que o deputado fosse recebido no dia 8 de janeiro pelo presidente para tratar do tema. O encontro acabou não acontecendo, e Lula pediu para o vice-presidente, Geraldo Alckmin, encontrasse o correligionário. No mesmo dia, porém, o presidente se reuniu, em Brasília, com Marta Suplicy.

— Assim como Lula recebeu a Marta, eu gostaria de ter a oportunidade de ser recebido — disse Suplicy ao GLOBO na sexta-feira.

Em junho de 2022, Suplicy interrompeu um evento da pré-campanha do PT e outras siglas, realizado em São Paulo, para se queixar de que não tinha sido convidado e que teve sua proposta do renda básica de cidadania ignorada pelo partido.

Ainda assim, correligionários se referem ao deputado estadual com palavras de prestígio quando perguntados sobre ele. Sua luta pela instituição da renda básica universal é sempre lembrada como de grande importância para o combate à desigualdade social, e sua personalidade é descrita como "autêntica".

Ingerência

A escolha de Marta para a vice de Boulos, a contragosto de alguns quadros do PT e do PSOL, expõe um partido em que decisões pessoais de Lula têm preponderância sobre a vontade de dirigentes municipais. Após o presidente ter entrado em campo para articular a repatriação de Marta, lideranças de ambos os partidos em São Paulo se diziam de mãos atadas no processo.

A influência de Lula contrasta com a estrutura interna do próprio PT, que favorece uma gestão mais democrática. Trata-se do partido brasileiro com maior média de diretórios municipais estabelecidos: 70,8%, segundo dados da Justiça Eleitoral de 2019. Nesse tipo de órgão, dirigentes são eleitos, e não impostos pela cúpula. É um sinal de forte democracia interna, segundo especialistas.

A taxa é superior a de aliados ou concorrentes como MDB (50,9%), PSDB (35,4%), PCdoB (30,9%), PP (20,2%) e PDT (17,9%).

O inverso costuma ser a regra no restante das siglas, onde comissões provisórias são predominantes. Por serem escolhidas pela cúpula partidária, seus dirigentes ficam reféns da vontade da executiva nacional, que pode destituí-los arbitrariamente. O Republicanos e o PL, por exemplo, são quase todos formados por órgãos provisórios.


Fonte: O GLOBO