A fuga do chefe da maior quadrilha criminosa do Equador, e a subsequente onda de violência imposta pelas gangues do país, colocaram a região em evidência nesta semana. Em 48 horas, o governo decretou estado de exceção, sete policiais foram sequestrados e houve ataques com explosivos nas ruas. O cenário representa a primeira crise do presidente Daniel Noboa, de 36 anos, mas não é novidade: é resultado, entre outras razões, da reconfiguração das rotas de tráfico locais.

Se há poucos anos o país era conhecido por ser um recanto de relativa paz entre os dois maiores produtores mundiais de cocaína (a Colômbia e o Peru) hoje, quase um terço da droga colombiana sai da América do Sul em direção aos Estados Unidos por portos equatorianos. Segundo autoridades locais, as duas maiores facções criminosas do país, Los Choneros e Los Lobos, são apoiadas financeiramente e recebem armas dos dois principais cartéis mexicanos: o Cartel de Sinaloa e o Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG).

Além deles, que disputam o controle das rotas de cocaína no Equador, atuam no país um grupo dos Bálcãs que a polícia chama de “máfia albanesa”. No último ano, autoridades locais descobriram laboratórios de processamento da droga na região, indicando uma possível evolução das facções locais para os chamados “microcartéis”. O acordo de paz com as antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) acabou empurrando dissidentes do grupo guerrilheiro envolvidos com o narcotráfico para o país vizinho.

Com isso, nos últimos cinco anos, os cartéis mexicanos assumiram um papel mais importante no negócio e subcontrataram grupos locais. Um ponto que favoreceu a nova configuração das rotas do tráfico transnacional é a dolarização da economia equatoriana, adotada em 2000, que juntamente com os fracos controles financeiros tornaram o país um local ideal para a lavagem de dinheiro do tráfico.

Segundo Glaeldys González, especialista do International Crisis Group, oito organizações criminosas disputam hoje o controle de partes da cadeia de abastecimento e se enfrentam com frequência. A polícia, por sua vez, atribui 80% dos assassinatos de 2022 a confrontos entre grupos criminosos que competem pelo controle da distribuição e da exportação de drogas, principalmente cocaína.

— Todo o corredor de Guayaquil, onde fica o porto que é a principal porta de saída de drogas para a Europa e os EUA, se converteu em uma espécie de campo de batalha desses grupos. Como se trata de um centro urbano e não uma zona rural, o impacto da violência tem sido ainda maior — afirmou a especialista em entrevista ao GLOBO. — O Equador passou a ter um importante papel na produção, refino e transporte de cocaína. A quantidade de drogas no país aumentou consideravelmente.

Entenda a crise atual

Nesta terça-feira, Noboa declarou que o país vivia um “estado de conflito armado interno”, e nomeou 22 grupos criminosos como “organizações terroristas”. O presidente ordenou que as forças armadas e a polícia da região se mobilizassem para “neutralizar” esses grupos. A sequência de ações ocorreu após Adolfo Macías, conhecido como Fito, líder da gangue Los Choneros, ter fugido da prisão no último domingo.

O governo de Noboa confirmou a fuga de Fito nesta segunda-feira, quando também foi declarado estado de emergência. Milhares de soldados foram mobilizados numa caçada para capturar o criminoso. Segundo o Insight Crime, os líderes do Equador já declararam estado de emergência antes, mas a ação tem se tornado mais comum nos últimos anos, à medida que as gangues do país se fortaleceram.

Durante a campanha, Noboa prometeu inicialmente combater o crime organizado ao fortalecer a rede de segurança social e investir na educação. Mas, com o assassinato do candidato presidencial Fernando Villavicencio, em setembro de 2023, Noboa passou a falar em militarização, prometendo mais autoridade para as forças armadas, além de novas tecnologias e armas para a polícia.

As duras medidas contra o crime, no entanto, parecem ter alimentado a reação das gangues. A administração de Noboa reconheceu que uma de suas propostas políticas, a de construir novas prisões de segurança máxima e transferir para lá líderes de gangues presos, pode ter desencadeado esta mais recente onda de violência.

Quem é Fito?

José Adolfo Macías Villamar cresceu em Manta, cidade costeira da província de Manabí, local estratégico para o tráfico de drogas. Aos 44 anos, o atual chefe da facção Los Choneros acumula 14 processos por crimes como homicídio, roubo, crime organizado e posse de armas. Desde 2011, cumpria uma pena de 34 anos. Nesse período, chegou a escapar da cadeia em outra ocasião: em 2013, ficou dez meses foragido após fugir com 15 reclusos da prisão de segurança máxima La Roca.

Nesse período, os criminosos foram os mais procurados do país. Quando foram detidos novamente, os agentes apreenderam 3,4 kg de maconha, cerca de 1 kg de cocaína, 147 munições, 195 fogos de artifício e outros itens, como geladeiras, freezers, aparelhos de ar-condicionado, caixas de som e celulares, segundo boletim divulgado pela Presidência de Guillermo Lasso (2021-2023). O documento não detalhou as armas de alto calibre utilizadas pelos presos.

A ascensão de Fito à liderança de Los Choneros ocorreu em 2020, após o assassinato de Rasquiña, que comandava toda a gangue. Os Choneros ganharam fama como assassinos de aluguel, embora com o tempo tenham ampliado sua lista de crimes para extorsão, roubo e tráfico de drogas. Primeiros a criar ligações com cartéis estrangeiros, são o braço operacional do cartel mexicano de Sinaloa, o primeiro a ser detectado no tráfico de drogas em grande escala no país.

Após a morte de Rasquiña, a luta para ocupar o cargo levou violência às prisões do país: em 2021, uma onda de massacres deixou quase 300 mortos. Foi decidido, com balas e sangue, que Fito seria o responsável pela facção. Sua nomeação, no entanto, dividiu o grupo criminoso em outras gangues, que agora se chocam. Segundo especialistas, Los Choneros têm um contingente de ao menos 8 mil homens.

Quem são Los Lobos?

Por muitos anos, Los Choneros, braço do Cartel de Sinaloa, foi considerada a facção dominante no país, mas o fim de sua hegemonia em 2020 deixou o caminho aberto para Los Lobos assumirem o controle de uma poderosa federação de gangues, que inclui Los Tiguerones e Los Chone Killers. Unidos, os grupos passaram a competir com Los Lobos pelo controle das prisões no Equador e pelo tráfico de drogas.

Hoje, Los Lobos é apontada pelo observatório InSight Crime como o segundo maior grupo criminoso do país, com mais de 8 mil membros distribuídos nas prisões equatorianas. E, desde 2016, Los Lobos e seus aliados fornecem armas e segurança para o cartel mexicano CJNG. Por isso, Los Tiguerones, Los Chone Killers e Los Lobos se autodenominam coletivamente como a Nova Geração.

Em fevereiro de 2021, a Nova Geração coordenou ataques contra os líderes regionais dos Los Choneros, tendo como alvo dois potenciais sucessores. Ambos conseguiram sair vivos, mas as disputas deixaram 80 presos mortos. Nos últimos anos, o grupo esteve envolvido em vários massacres sangrentos em presídios, que deixaram mais de 315 presos mortos só em 2021, e atua principalmente com tráfico de drogas. A facção também se tornou muito ativa na indústria de mineração ilegal.

Com as disputas entre as facções, as taxas de homicídio no Equador dispararam: passaram de 5,6 por 100 mil habitantes em 2017, para 25,32 por 100 mil habitantes em 2022, a maior da história. Com isso, o Equador ultrapassou o Brasil — que registrou uma taxa de homicídios de 19,5 por 100 mil habitantes no mesmo ano — e se tornou o terceiro país mais violento da América do Sul, atrás apenas da Venezuela e da Colômbia.


Fonte: O GLOBO