Gigantes do setor ampliam investimentos em exploração e produção de óleo e gás em meio à expectativa de alta na demanda e aumentam desafio climático

Em tempos de transição energética, as petroleiras ao redor do mundo aceleram não só investimentos em parque eólicos e solares. Além das fontes renováveis de energia, elas voltaram a ampliar aportes na exploração e produção de petróleo e gás, com o desenvolvimento de novas reservas de olho na perspectiva de que o consumo de combustíveis de origem fóssil pode alcançar o seu pico na próxima década, apesar dos esforços internacionais para atingir metas de redução das emissões de carbono até 2030.

As novas estratégias das gigantes do petróleo incluem ainda a aquisição de novos campos em terra e mar e até de rivais. O cenário pode tornar ainda mais desafiador deter as mudanças climáticas, alertam especialistas que não veem acaso no movimento.

De um lado, investidores têm cobrado retornos financeiros mais altos das companhias, já que os projetos de renováveis têm margens de lucro menores atualmente. Do outro, estudos da Agência Internacional de Energia (AIE) e de empresas compilados pelo Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP) apontam que o consumo de petróleo vai atingir seu recorde no planeta entre 2030 e 2035.

“De acordo com cenários mais conservadores, o consumo de petróleo deve continuar a crescer pelo menos nas próximas duas décadas”, aponta o IBP.

A Opep, que reúne os maiores produtores de petróleo do mundo, prevê a demanda global no nível máximo em 2045. Com isso, o valor de investimentos previstos pelas companhias até lá chega a US$ 14 trilhões, maior que os US$ 12,1 trilhões estimados no ano passado. Levantamento da AIE estima que, somente em 2023, os investimentos das petroleiras em exploração e produção de petróleo no mundo aumentaram 7%, para US$ 500 bilhões, maior patamar desde 2019.

No Brasil, a Petrobras anunciou recentemente seu novo plano de negócios com investimentos de US$ 102 bilhões (R$ 492 bilhões) entre 2024 a 2028. Desse total, US$ 91 bilhões são destinados à exploração e produção de novas áreas de petróleo como no pré-sal (Sudeste), Margem Equatorial (Norte e Nordeste) e na Bolívia.

A meta é, por enquanto, perfurar 50 novos poços, mas o número deve aumentar porque a estatal conquistou no último dia 13 mais 29 blocos na bacia de Pelotas, em águas ultraprofundas no Sul do Brasil, em parceria com a anglo-holandesa Shell e a chinesa CNOOC. Trata-se de mais uma nova fronteira exploratória no país. No mesmo leilão da Agência Nacional do Petróleo (ANP), a americana Chevron levou outros 15 blocos na mesma região.

A norueguesa Equinor, uma das petroleiras que mais investem em fontes renováveis no mundo, também abriu uma nova frente de petróleo no Brasil ao desbancar a britânica BP na disputa pela primeira área licitada além das 200 milhas náuticas, já em águas internacionais, na Bacia de Santos.

— O leilão demonstrou o interesse em novas fronteiras de petróleo. Há uma necessidade de repor reservas a partir de 2030. O aquecimento global tem relação com as emissões de carbono na atmosfera, mas precisamos entender que precisamos nos livrar da dependência do petróleo e não nos livramos do petróleo. Tem que ter energia para substituir isso. Só assim será possível ir para uma economia de baixo carbono — diz Rodolfo Saboia, diretor-geral da ANP, citando o compromisso dos 118 países participantes da COP28 (conferência da ONU sobre mudança climática encerrada recentemente em Dubai) de triplicar os investimentos em renováveis até 2030.

Redução das apostas em transição energética

La fora, o apetite por petróleo é crescente, com expectativa de alta das cotações internacionais com maior consumo na esteira da recuperação das economias. A americana ExxonMobil anunciou recentemente a compra da Pioneer, que é uma das maiores produtoras de petróleo dos EUA e usa técnicas não convencionais como o fraturamento hidráulico (fracking), em um negócio avaliado em quase US$ 60 bilhões.

A Chevron pagou US$ 53 bilhões pela petrolífera Hess para garantir o acesso a reservas da Guiana na Margem Equatorial, que despertam a cobiça da vizinha Venezuela. E a Occidental Petroleum anunciou a aquisição da CrownRock por US$ 12 bilhões, fortalecendo seu portfólio com ativos no Texas, no sul dos EUA.

Proejto eólico na Serra da Babilônia, da Rio Energy, comprada pela Equinor — Foto: Divulgação

— Uma série de empresas mudou suas estratégias, com a redução de uma aposta agressiva em transição energética. Isso indica que a segurança energética está se tornando mais importante. Para 2024, prevemos que os preços do petróleo permanecerão elevados, com um preço médio na casa dos US$ 90 — diz Espen Erlingsen, chefe de Pesquisa Upstream na Rystad Energy.

“Muitas grandes empresas de petróleo e gás anunciaram planos de gastos mais elevados com base em receitas recordes”, apontou recente relatório da AIE. Além disso, desde que a Rússia invadiu a Ucrânia houve alta de 25% nas aprovações de projetos de petroleiras para ampliar o fornecimento de gás natural, na construção de gasodutos ou de estações de regaseificação do GNL (gás liquefeito).

— É importante continuar investindo porque o consumo vai continuar. Quando se fala em refinados de petróleo, os maiores volumes consumidos no mundo são diesel e gasolina. O gás é um caso específico porque o produto já está fazendo parte do processo de transição energética, porque emite menos gases do efeito estufa, em um mercado que também envolve o biogás e o biometano — explica Marcus D’Elia, sócio da Leggio Consultoria.

O especialista explica que a manutenção do uso predominante de combustível fóssil nos transportes é a principal alavanca da produção petrolífera:

— Até 2030, 9% da frota no Brasil será composta por veículos híbridos e elétricos. Até 2040, nossa projeção estima que esse percentual chegue a 40%. Espera-se que o pico de consumo de gasolina ocorra em 2032. No ciclo do diesel, o horizonte é mais longo e revela um consumo em ritmo elevado. A demanda por diesel fóssil no Brasil continuará crescente até 2054. É preciso adequar nossa produção ao volume demandado, e novos investimentos na produção de petróleo e no refino são necessários para atender com a produção nacional a demanda do país.

Durante a COP-28, a Enauta, uma das principais petroleiras independentes do Brasil, batizou em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, sua primeira plataforma, a FPSO Atlanta, que vai operar no campo de mesmo nome, na Bacia de Santos. A embarcação, que está consumindo investimentos de US$ 1 bilhão, tem capacidade para produzir até 50 mil barris de óleo por dia e estocar até 1,6 milhão de barris de petróleo.

Necessidade de petróleo no mundo

Décio Oddone, presidente da companhia e ex-diretor-geral da ANP, diz que o investimento reflete a necessidade de petróleo no mundo:

— A demanda por petróleo vai continuar crescendo. A previsão de consumo para 2024 aumentou. As empresas europeias que estavam investindo pesado em renováveis estão dando novos passos para o petróleo. A transição não vai acontecer apenas com a forte redução na oferta do petróleo, pois isso vai gerar inflação e afetar os países mais pobres. É preciso criar alternativas para que a demanda por energia migre para outras fontes.

Navio-plataforma P-71, da Petrobras, instalado na Bacida de Santos — Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Para ele, a solução da indústria de petróleo envolve o desenvolvimento de petróleo com técnicas capazes de mitigar as emissões, como o desenvolvimento de projetos de captura e armazenamento de carbono.

No leilão recente da ANP, o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, disse que os blocos de petróleo adquiridos em Pelotas contarão com projetos de energia eólica em alto-mar. A estatal estuda projetos semelhantes em outras áreas do Brasil, como na Margem Equatorial e em diversos locais da costa brasileira.

— Queremos produzir petróleo mais descarbonizado — disse Prates, durante o leilão, explicando que é importante adicionar um componente renovável para atrair financiamento a médio e longo prazo para os projetos.

Recentemente, o presidente da Shell no Brasil, Cristiano Pinto da Costa, defendeu a importância de buscar novos projetos de petróleo no Brasil. A empresa chega ao fim deste ano com 68 contratos no setor, maior que os 39 antes do leilão feito pela ANP. Além dos 29 blocos em Pelotas, a petroleira tem oito blocos na Margem Equatorial e projetos na Bacia de Santos, entre outros:

— Ainda faz sentido explorar com base na oferta e na demanda de hidrocarbonetos. Estudos mostram que o pico do consumo vai ocorrer na metade da década de 2030. É preciso caminhar para a transição com segurança energética.

Segundo Carlos Frederico Bingemer, sócio da área de Energia do escritório BMA Advogados, as projeções apontam para um cenário onde a produção brasileira de hidrocarbonetos seguirá aumentando durante a próxima década, mesmo havendo uma diminuição percentual da participação de combustível fóssil na matriz energética, tendo em vista o incremento das fontes alternativas.

— Ainda que haja uma preocupação crescente com a transição energética e com a descarbonização, petróleo e gás seguirão sendo fontes de energia imprescindíveis para a manutenção da segurança energética. O gás natural, por exemplo, é considerado um combustível fundamental para viabilizar uma transição bem sucedida. Ou seja, o investimento em exploração e produção, visando a expansão das reservas, é uma medida necessária para evitar o futuro declínio da produção e indispensável para o avanço dos esforços rumo à transição — afirma Bingemer.


Fonte: O GLOBO