Ela esteve em campo registrando o colossal movimento de lava, espetáculo que atrai pesquisadores e turistas; antes, especialista estudou o último resto de vulcão do Brasil, na Ilha de Trindade

Pouco mais de uma semana após o Kilauea entrar em erupção, a atividade cessou e não representa mais risco para as comunidades próximas no Havaí. De acordo com a Agência de Gestão de Emergências, o material começou a ser expelido das fissuras na base da cratera no dia 10 de setembro, mas a intensidade foi reduzindo gradualmente até cessar no dia 16. Esta foi a terceira erupção do ano no mais ativo vulcão do mundo, acompanhada de perto pela vulcanóloga brasileira Natalia Gauer Pasqualon.

— Esta última erupção aconteceu confinada à cratera chamada Halema’uma’u, portanto não ameaçando a população no entorno, e somente algumas áreas do Parque Nacional dos Vulcões foram fechadas ao público, por conta da emissão de gases tóxicos como SO2 e CO2 — diz a vulcanóloga, voluntária oficial do Serviço Geológico Americano e do Observatório de Vulcanologia do Havaí.


Terceira erupção no Kilauea no ano chega ao fim após espetáculo para turistas e estudante

Natália trabalha com a produção de vídeos de alta resolução no monitoramento do Kilauea. Desde o dia 11 de setembro, ela esteve em campo com sua câmera registrando o colossal movimento das bolhas incandescentes que brotam das profundezas da Terra.

— O meu trabalho envolve conseguir vídeos de alta resolução usando uma câmera específica. As gravações depois são levadas ao laboratório para poder extrair alguns parâmetros eruptivos. Medimos alguns deles, como por exemplo o tamanho das fontes de lava, a velocidade de saída das partículas, o tamanho das partículas que são ejetadas. Esses dados nos auxiliam a entender um pouquinho melhor como está se dando a dinâmica eruptiva — diz a vulcanóloga.

O Kilauea já havia entrado em atividade em janeiro e em junho. O nome significa ‘cuspir’, uma alusão ao permanente fluxo de lava que sai de sua cratera.

— Essa erupção já era esperada, com o aumento da atividade sísmica e deformação do terreno registrados nos dias que antecederam o seu início. Apesar de já esperada, o foco das fontes de lava mudou de posição dentro da cratera desde a última erupção em junho deste ano, e também houve a abertura de mais condutos — observa Natália.

É um espetáculo que, apesar de preocupar a população local, atrai milhares de turistas.

— Este é um momento marcante na história do Kīlauea, com diversas erupções sucessivas após o colapso da caldeira em 2018, e me sinto privilegiada em poder acompanhar de perto e participar da rápida resposta juntamente com a equipe do observatório —diz a especialista.

Os dados mais recentes mostram uma estabilidade na estrutura.

— Nos últimos dias, antes de cessar, a atividade foi perdendo intensidade, e o número de condutos ativos com fontes de lava diminuindo significativamente, mas o espetáculo continuava lindo — assinala Natalia.

Estudo sobre vulcões brasileiros

Natalia se formou em geologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e estudou as atividades vulcânicas no território hoje ocupado pelo Brasil. Ela fez pesquisa de campo na Ilha de Trindade, onde existe o último resto de vulcão do país. Mesmo assim, o vulcão está extinto há cerca de 250 mil anos, antes até do aparecimento do homo sapiens.

Natalia é voluntária oficial do Serviço Geológico Americano e do Observatório de Vulcanologia do Havaí. A brasileira é aluna de doutorado da Universidade do Havaí e também de outro doutorado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A brasileira vive hoje no que seria a Disneylandia para um vulcanólogo: as ilhas havaianas. São seis vulcões ativos para contemplar e aprender. Além do Kilauea, o mais ativo, tem ainda o Mauna Loa, o maior vulcão do mundo em atividade, com 4.168 metros de altitude.

Natalia se considera uma sortuda. Ela pode presenciar em dezembro a primeira erupção do Mauna Loa em quase quarenta anos. A última atividade havia sido registrada em 1984.


Fonte: O GLOBO